sábado, 16 de julho de 2011

Safári

Meu computador deu pau essa semana. Solução, usar o da Laura. Nunca achei que aquela guria baladeira, que vai do Luan Santana ao Raça Negra gostava tanto de animais. Aconteceu que a Laura não é lá um dos gênios da informática. Excluir o histórico de sites visitados, então, acho que ela nunca ouviu falar.

A Laura senta em uma mesa em frente a minha. Chega cedo e vai embora cedo. Logo, o Mac vaga e fica só pra mim. Isso enquanto o meu é revirado do avesso pelos técnicos do help desk.

Tá eu já tinha notado um bibelô com um casalzinho de porcos em cima da mesa. Num folder da CVC com roteiros sobre a África. Mas agora, acessar mais de 30 páginas no dia só sobre animais, e feras, e casos de acidentes em safáris é um pouquinho de mais.

Na quarta-feira, quando cheguei, lá estava ela falando pra Carla sobre um documentário que tinha visto sobre ataque dos leões num desses canais da TV a Cabo. Monotemática a Laura nos últimos dias. E eu, que não me aguento de tão curiosa, resolvi perguntar.

- Safári na África nas próximas férias? Tá podendo, hein amiga?

- Que nada. É uma pesquisa só.

- Pesquisa?

E a Laura desandou a chorar. Do nada. Como se a minha pergunta tivesse feito detonar uma bomba nuclear.

Meio desorientada, levantou da cadeira e tentando despistar, pegou o celular e saiu porta fora da sala. Ninguém mais do escritório, onde trabalham 27 pessoas que fingem estar atarefadas, notou.

Claro que eu fui atrás e nem precisei procurar muito. Entrei no banheiro feminino e ouvi um soluço. Das quatro portas, a última estava entreaberta e era de lá que vinha o som. Bati e chamei por ela. O soluço aumentou.

- Olha Laura, desculpa perguntar sobre a tua pesquisa. Ai guria, fiquei em sentindo super mal. Tem algo que eu possa fazer?

- Tem – disse ela, abrindo a porta, já com os olhos inchados e um pedaço de papel higiênico com o qual ela limpava o rímel borrado.

Qual não foi a minha surpresa quando ela disse que precisava desabafar. Nunca fomos além de colegas de trabalho, que saem vez na vida outra na morte pra um happy hour e que se tratam cordialmente. Mas achei que devia ouvir. Um pouco de solidariedade feminina sempre ajuda.

- Não é férias – tentou dizer entre um soluço e outro.

Quando o choro dava uma pausa, Laura conseguia falar. E não ter falado antes era o grande problema.

A Laura tinha um ex. Um ex com o qual ela se comunicava eventualmente. Um ex que ainda despertava nela o que havia de melhor e o de pior. O fim foi trágico, longo e, pior, tinha idas e vindas eventuais quando ele dava as caras na cidade. Do namoro de dois anos ficaram vários amigos em comum, uma afilhada, um carinho pela mãe dele (que ela ainda chamava de sogra) e uma saudade.

Seis meses depois do fim, a Laura decidiu ir em frente. Cortou contatos com ele. Mas como o destino insistia em pregar peças, volta e meia eles se encontravam. E tudo voltava a ser, por algumas horas, como tinha sido antes. E num piscar de olhos, as brigas recomeçavam e cada um ia para o seu canto.

- Sabe duas pessoas que se amam, mas que de tão parecidas não se suportam e não conseguem ficar nem juntas nem separadas?

Só me restou balançar a cabeça dizendo que sim, mas eu não sabia. Estava mais interessada que ela continuasse contando a história.

Há seis meses, pela melhor amiga dela, a Laura soube que o Fabiano estava partindo pra Belo Horizonte. Ia trabalhar lá.

- Era o sonho da vida dele – disse ela, caindo no choro de novo.

Consegui convencer a Laura a lavar o rosto, respirar e só então continuar.

- Ele sempre disse que queria. Era o momento mais esperado da carreira dele e ele não dividiu comigo.

A queixa dela era não fazer parte. Não ter ficado nem a amizade que eles tinham e que funcionava bem. Por seis meses ela suportou a ausência, as notícias contadas pelos amigos, a saudade. A vida andou, a Laura disse que ficou com outros caras, mas não esquecia o Fabiano. Mas longe, doía bem menos. Até terça-feira passada.

- A mãe dele me ligou. Me chamou para ir lá e depois de duas canecas de chá me contou que ele estava indo para a África e que ela não sabia como ficar tão longe do filho – soluçou Laura, pausadamente cada uma das palavras.

Então, os acidentes com carros de safári, leões que devoram turistas, epidemias, girafas e elefantes tomaram conta do computador dela. Da vida dela. Laura respirou fundo. E depois em olhou nos olhos, segurou as minhas mãos e sem derramar uma única lagrima disse:

- Fátima, nunca deixe de dizer a alguém que você a ama. Nunca deixei de dizer que você se importa com ela, nunca deixe que ela parte sem saber o quanto você se importa. Por mais que doa dizer, diga.

Daí eu me assustei.

Será que o cara tinha morrido nunca acidente desses em jipe, ou que um bicho tinha feito dele pedacinhos ou que tinha pego uma doença que lhe daria pouco mais de um mês de vida. Mas não.

O Fabiano nem havia embarcado. Ou se o tivesse feito, estava sobrevoando o oceano Atlântico. E a Laura ali sofrendo por não ter tido a coragem de dizer a ele o que me pareceu tão simples.

Ela se levantou. Foi até a pia. Olhou-se no espelho. Lavou o rosto. Secou os olhos para não deixar a maquiagem borrada. E sorriu timidamente. E antes de sair porta a fora, olhou de volta pra mim e arrematou:

- E nunca deixe ao menos desejar uma boa viagem, para que ao menos ele saiba que tu ainda te importa com ele.

Sabe-se lá que selva os esperava.

4 comentários:

  1. Uau!!! Profundo! Todos os dias desejarei boa viagem pois o Cezar enfrenta diariamente o Sáfari da BR. 116, pior que leões! Hehehe

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  2. Tu é fantástica!
    Parabéns pra ti e uma vaia pra essa Laura birrenta, que deixou de desejar uma boa viagem pro cara e depois fica se lamentando!! Mulheres.... hahaha beijosss

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  3. Mulheres, mulheres...
    Laura, Fabiano e África, tudo muito familiar!

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  4. Amei! Mas essa Laura hein... Tomara que tenha aprendido! Beijo

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