sábado, 16 de outubro de 2010

Cansei...

Cansei de ficar em casa esperando que a vida aconteça. Cansei de esperar pelo trem na plataforma da estação. Cansei de esperar o elogio que tu nunca me fez. Cansei de jogar na loteria e nunca acertar mais do que um número. Cansei de tocar a companhia das casas vazias.

Faz muito tempo que cansei. Foi quando acordei. Quando parei de correr atrás e respirei. Olhei para a direita. Para a esquerda. Olhei para trás e vi que a vida tinha ficado lá longe. Nada me pertencia, nada era meu. Eu corria por coisas que não eram para mim. o carrinho que eu empurrava, pesado, não tinha nenhum pertence meu.

Foi aí que eu finalmente parei. Parei de novo. Respirei um, duas, três vezes. Começou a chover. As gotas da chuva pareciam entrar pelos meus poros e lavar todo aquele ranso que me me acompanhou por anos. Estava limpa. Zerada. Podia seguir. Só não sabia para onde.

Por muito tempo fui para onde me diziam para ir. Ia para não andar sozinha. Ia para não me sentir solitária. Mas me sentia solitária mesmo assim. Caminhava com pessoas ao meu lado que pareciam não me ver. Era uma invisibilidade visível.

Demorou para que eu me desse conta disso. Larguei o carrinho que, eu mesmo sem saber para onde ia, eu continuava empurrando. Fui deixando as coisas pelo caminho. Esvaziando o carrinho. Agora quero colocar coisas novas e antigas mas que sejam minhas. Coisas que eu queria, que eu goste. Coisas que eu deseje e ame.

Vou seguir caminhando. Mesmo sem fôlego, ofegante quanto aquela criança que corre atrás do vendedor de sorvete na beira da praia. Cansei, mas respiro mais uma vez. A recompensa promete ser gratificante como um picolé de limão sob o sol escaldante de Cidreira.

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