quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Lealdade

É difícil encontrar alguém que nos entenda. Alguém que nos olhe nos olhos e, sem qualquer palavra, adivinhe exatamente o que queremos. Dizem que raramente encontramos alguém assim e, quando isso acontece, é mágico.
Vago sozinho pelas ruas de Porto Alegre, com fome e sede, um dia encontrei esse alguém. Não sei dizer quantos anos tenho. Sei que vivi o suficiente para me assustar com algumas coisas e não me surpreender com outras. De vez em quando eu faço aquela cara de quem caiu da mudança e arrumo um pouco de água e um prato de comida. Mas não um afago, não um olhar doce, não um amigo.
Até que um dia, numa dessas caminhadas sem destino encontrei um homem. Vestido de roupa laranja, daquelas que não tem como não ver nem no escuro, eu esbarrei nele. E foi de propósito. Deitado na calçada de uma rua cheia de árvores, ele dormia. O sono profundo e tranquilo me inspirou confiança. Me acheguei. Ele nem se importou, virou para o lado me dando espaço para deitar ao seu lado.
Não saí mais. Ele diz para todos os seus iguais que me conquistou com um pouco de água que aplacou a minha sede. Mentira. Ele não sabe, porque nunca conseguiu lhe dizer, que foi a sua respiração calma, o seu olhar tranquilo, a paz que ele me transmite.
Como não sei como dizer isso a ele, ando ao seu lado. Todos os dias. Faço isso para demonstrar-lhe minha afeição e gratidão, mas também porque sua companhia é a mais agradável de todas as que já experimentei. Não consigo ficar longe dele, de receber seu afago nas minhas costas, seus conselhos para não atravessar na frente dos carros.
Sou só um vira-latas perdido, com cara de riquinho mas sem qualquer pedigree. Eu era um cão errante, sem dono, sem destino, sem paradeiro. Não sou mais. Agora minha sina é andar ao seu lado enquanto recolhes as folhas secas caídas nas calçadas ou quando empurra aquele carrinho barulhento.
E vou continuar te olhando, com essa cara de quem não tem dono, mesmo já tendo. É a única forma que sei retribuir.

Um comentário:

  1. Muito bom o texto. Uma sugestão seria a parte dois, em que a burocracia do chefe do gari fez com que os dois se desencontrassem. Duas vidas que já provaram a lealdade e agora esperam que o destino os junte de novo, algo desgraçadamente improvável.

    ResponderExcluir